Vídeo: Cuca fala sobre condenação após jogo do Athletico

Pronunciamento aconteceu durante coletiva de imprensa, nesse domingo (10)
Renato Rodrigues Renato Rodrigues
  • Cuca foi condenado por estupro e coação, na Suíça, em 1989
  • Em 3 de janeiro, justiça suíça anulou a condenação
  • Ele esteve um ano fora dos gramados

O domingo (10) marcou a volta de Cuca à linha lateral dos gramados. Desta vez, no comando do Athletico, o retorno aconteceu com a goleada de 6 a 0 sobre o Londrina, em confronto válido pelas quartas de final do Campeonato Paranaense, na Ligga Arena.

No momento de sua coletiva de imprensa, o técnico então, aproveitou a situação para fazer um pronunciamento sobre a condenação por estupro e coação, anulada pelo Tribunal Regional de Berna-Mittelland, na Suíça, no começo de 2024. Veja vídeo.

Relembre o caso

Cuca foi condenado em 1989 a 15 meses de prisão após um estupro ocorrido em 1987, durante uma excursão do Grêmio pela Europa.

A decisão do Tribunal é centrada na concordância apresentado pela defesa de Cuca, que baseou o pedido de anulação do julgamento ao alegar que o mesmo se deu à revelia, sem que o réu estivesse presente e sem que seus advogados pudessem defende-lo. Cuca então, não foi inocentado, pois a Corte não entrou no mérito da questão.

Além da anulação em 03 de janeiro, Cuca foi indenizado em 9,5 mil francos suíços, ou R$ 50 mil.

Veja a fala de Cuca

Confesso para vocês que estou nervoso. É um tema muito sério, muito importante.

Escrevi para não correr o risco de errar, porque não sou bom com palavras, sou muito “boleirão”. Queria falar sobre os últimos meses que eu tenho vivido. Há quase um ano eu sai do Corinthians e vocês podem imaginar o que estou passando e o quanto estou refletindo. Antes de falar, precisei escutar minha esposa, minhas filhas. Escrevi esse texto com a ajuda delas. Porque ainda não me sinto com conhecimento suficiente para falar sobre algo tão forte. Por elas e por todas eu escrevi e não quero errar.

Tenho escutado as opiniões e tentado entender o meu papel. No começo do ano li uma coluna da Milly Lacombe, da UOL, em que ela disse que isso não era sobre mim. Eu entendi o que ela quis dizer. Não é SÓ sobre mim, mas é sobre mim também. Eu escolhi me recolher durante muito tempo, mas consegui seguir a minha vida, enquanto uma mulher que passa por qualquer tipo de violência não consegue seguir a vida dela sem permanecer machucada, carrega o impacto para sempre. Eu consegui seguir minha vida. O mundo do futebol e o mundo dos homens nunca tinha me cobrado nada, mas o mundo está mudando e eu acho que é para melhor.

Não adianta eu ser um grande treinador, esposo, pai, avô, irmão, se eu não entender que o mundo é mais do que o futebol e que eu faço parte dessas coisas. Eu enxergava os problemas, mas me calei porque a sociedade permitia que eu, como homem, me calasse. Hoje entendo que o silêncio soa como covardia. Tenho buscado ouvir mais, entender mais, aprender mais.

Não posso mudar o passado. Muitos homens agora me escutam e são capazes de olhar para o passado para rever suas atitudes. Sabemos que o mundo é um lugar diferente para os homens e mulheres, e quando enxergamos isso podemos até resistir, mas as coisas começam a mudar. Só que mudanças honestas e verdadeiras levam tempo, exigem dedicação, estudo, são dolorosas e desafiadoras.

A realidade tem que ser transformada para que o mundo seja um lugar mais seguro para as mulheres. O mundo do futebol ainda é um mundo de muito preconceito. Entendi que quando me cobram não é só sobre mim, é sobre a forma como tratamos as mulheres. Não estou falando isso como fala isolada para agradar alguém, ou da boca para fora. Se fosse assim teria me manifestado antes. Falo isso de coração.

Quero e me comprometo a fazer parte da transformação. Vou fazer isso com o poder da educação. Quero ajudar. Quero jogar luz, usar a voz que tenho para, ao mesmo tempo que me educo, educar também outros homens, principalmente os jovens que amam futebol. Sucesso repentino é desafio. Muitos se perdem pelo caminho com fama e dinheiro. Somos levados a acreditar que podemos tudo, inclusive desrespeitar as mulheres. Precisamos dar aos mais novos a oportunidade de não errarem como tantos de nós erramos. É ali que podemos sensibilizar, colocar para pensar, orientar. Sucesso, dinheiro e fama não servem para nada se você se perder no caminho.

Eu pensei que eu estava livre da minha angústia quando solucionei meu problema com a anulação do processo e a indenização. Mas entendi que não acabou porque não dependia apenas da decisão judicial, mas que eu precisava entender o que a sociedade esperava de mim. O que vocês vão ver de mim daqui para frente não serão palavras, serão atitudes. Mas obrigada por me ouvirem hoje.”

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